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A chegada de D. Leopoldina ao Rio de Janeiro 200 anos atrás.

EM 8 DE NOVEMBRO, a Gazeta do Rio de Janeiro informou que, no dia 5, pela
manhã, chegou à cidade a notícia de ter sido avistada a esquadra que trazia “Sua
Alteza Real e Sereníssima Senhora Princesa Real do Reino Unido de Portugal, do
Brasil e dos Algarves”.

leopoldina castelo de popa

D. Leopoldina no castelo de popa do navio D. João VI aguardando o desembarque no Rio de Janeiro. Desenho de Franz Joseph Frühbeck

A cidade alvoroçou-se. Os morros “começaram desde logo a cobrir-se de
imenso povo, que, com os olhos pregados no horizonte, aguardava impaciente a
chegada da afortunada nau”.

D. Leopoldina assim descreveu a primeira vista do Rio de Janeiro:

[…] Nem pena nem pincel podem descrever a primeira impressão que o paradisíaco
Brasil causa a qualquer estrangeiro […] na entrada da baía há três belos fortes,
além de vários grupos de ilhas, ao longe vislumbram-se altíssimas montanhas cobertas
de palmeiras e muitas outras espécies de árvores.

Nanny, a dama de companhia de D. Leopoldina assim lembraria a ocasião:

[…] Um vento contrário nos sacudiu por muito tempo diante da costa, por fim
no dia 5 chegamos às 6 horas da tarde, a entrada desse porto é maravilhosa, dois
rochedos enormes, duas grandes massas de granito protegem a entrada, um chamado
Pão de Açúcar por causa dessa forma, parece tocar as nuvens, as duas costas estão cobertas com as mais belas plantas; montanhas, ilhas; palmeiras, bananeiras,
todos os tipos de árvores da América formam o mais belo e estranho cenário.
Um número infinito de barcos de todos os tipos navegava em torno dos nossos
navios, eram curiosos de Rio Janeiro que vieram nos ver de longe, meus olhos se
pousaram sobre o nosso Áustria que nos tinha ultrapassado e que repousava ali
no porto; gritos de alegria ecoaram em nossos ouvidos, trombetas, canto, era a voz
dos nossos compatriotas […] O rei enviou um camareiro [para] cumprimentar
nossa princesa e avisá-la que ele viria com toda a sua família à noite.

Assim que o mastro despontou no horizonte e o pavilhão do Reino Unido
foi avistado, por volta das cinco horas da tarde, uma salva de 21 tiros de canhões
de todas as fortalezas e navios de guerra saudaram a nau D. João VI. Novos tiros
foram dados assim que o navio soltou âncora no porto.

D. João veio com d. Pedro na galeota real de São Cristóvão até o cais do Arsenal
Real da Marinha, onde já se encontrava a rainha d. Carlota Joaquina, acompanhada
das infantas. A fortaleza da Ilha das Cobras, logo que avistou o estandarte real,
deu uma salva, o que imitaram as embarcações de guerra.

Às oito horas, Nanny observava a chegada da galeota até junto à nau D. João VI:

[…] Meu coração bateu forte, a princesa ia ver pela primeira vez aquele que devia
decidir o destino da sua vida toda; como o rei havia anunciado que ele não poderia
subir no nosso navio por ter dor numa das pernas, nossa princesa seguida da sua
corte desceu as escadas e veio até o barco do rei que estava rodeado de toda a sua família, nós ficamos na porta dessa pequena galé e vimos tudo o que aconteceu ali […].

O rei, no barco, após cumprimentar d. Leopoldina, apresentou a arquiduquesa
ao filho, e d. Pedro entregou à esposa uma caixa de ouro repleta de diamantes
lapidados. Diante do espanto da princesa, d. João teria dito: “Vossa alteza vem
para o país das pedras preciosas.” E que pedras preciosas! Segundo a descrição da
condessa de Kühnburg, nada inventada, pois confere com a descrição do inventário
das joias deixadas por d. Leopoldina, tratava-se de “diamantes montados em buquês, em nós de fitilhos, em penachos, em socós, entre outros há um pássaro do paraíso em diamante cuja cauda forma uma pluma, e que carrega no bico uma pequena Coroa de Louros”.

A família Bragança que recebeu d. Leopoldina era, segundo a descrição de
Nanny ao pai, formada por um rei:

[…] alto e forte, a bondade está presente em todos os seus traços, ele recebeu e
tratou nossa princesa como um pai, a rainha é uma mulher bem franzina, cheia
de vivacidade e de espírito […] felizmente todos falam francês um pouco, a jovem
princesa viúva8 e seu filho, uma criança adorável, são bastante interessantes
também, e a mais velha das três princesas não casadas, Isabel Maria, chamou
particularmente minha atenção. Ela é tão bonita, tem uma fisionomia tão doce e
bondosa, ela é o charme dessa Corte e a felicidade dos seus pais […].

Nanny deixou o mais esperado para o final: “Por fim o príncipe Dom Pedro,
marido da nossa princesa: ele tem uma bela fisionomia, é ainda melhor que
seu retrato, belíssimo homem.” A reação de ambos, d. Pedro e d. Leopoldina, ao
se encontrarem pela primeira vez não poderia ser mais contemporânea. Quantos
adolescentes não passaram por algo semelhante? “Ele estava sentado diante
da nossa princesa, os olhos baixos os levantavam furtivamente de vez em quando
sobre ela, e ela fazia o mesmo, naquele dia ela estava realmente bem.”

Fonte: REZZUTTI, Paulo. D. Leopoldina, a história não contada. Ed. LeYa Brasil, 2017.

O documento que a Imperatriz Leopoldina nunca assinou

Recentemente tem havido no Brasil um movimento de empoderamento de vários grupos que constituem a nossa sociedade. O problema de vários deles é que, na ânsia de provarem seus pontos de vista e tirarem a poeira de diversos personagens da nossa história, acabam falando coisas que não ocorreram. Recentemente vi com preocupação a criação de um mito, o do “documento da independência”, que nunca existiu, assinado por D. Leopoldina.

D. Leopoldina foi, sem sombra de dúvidas, como eu demonstro na minha biografia sobre ela “D. Leopoldina, a história não contada”, a primeira política brasileira e a primeira governante de nosso país. Tiremos de lado D. Maria I que governou, parcialmente enquanto foi sã, uma colônia chamada Brasil que depois foi transformada em Reino Unido por seu filho, D. João; que governou muito mais que a mãe no cargo de Príncipe Regente.

D. Leopoldina foi a primeira mulher a governar o Brasil, poder esse exercido, autorizado e amparado pelo Decreto de 13 de agosto de 1822 no qual D. Pedro, que partia para São Paulo, deixava a esposa como governante do Brasil em sua ausência. O decreto diz:

“Tendo de ausentar-me desta capital por mais de uma semana para ir visitar a província de São Paulo (…) hei por bem que os meus ministros e secretários de Estado continuem nos dias prescritos (…), debaixo da presidência da princesa real do Reino Unido, minha muito amada e prezada esposa, no despacho do expediente ordinário das diversas secretarias do Estado e repartições publicas que será expedido em meu nome, como se presente fora (…) a qual fica desde já autorizada para, com os referidos ministros e secretários do Estado, tomar todas as medidas necessárias e urgentes ao bem e salvação do Estado; e tudo me dará imediatamente parte para receber a minha aprovação e ratificação, pois espero que nada obrara que não seja conforme as leis existentes e aos sólidos interesses de Estado. (…) Palácio do Rio de Janeiro, 13 de agosto de 1822.”

Ou seja, apesar de presidir o Conselho de Estado, receber secretários e ministros, D. Leopoldina tinha que dar parte de tudo o que fizesse para receber aprovação final de D. Pedro.

O Conselho de Estado reunido e presidido por ela em 2 de setembro de 1822 aconselhou (afinal era esse o objetivo do Conselho) que D. Pedro permanecesse no Brasil indo contra, novamente, as ordens da Assembleia Constituinte Portuguesa. A própria princesa afirma isso na carta que D. Pedro recebe em 7 de setembro no Ipiranga antes de proclamar a Independência:

“O Conselho do Estado aconselhava-vos para ficar. Meu coração de mulher e de esposa prevê desgraças, se partirmos agora para Lisboa.”

É inegável que em todo o episódio do Fico, durante todo o processo da Independência. D. Leopoldina procurou fazer de tudo para assegurar o bem e a segurança dos brasileiros e da causa autonomista. Mas não houve nenhuma declaração formal assinada pela princesa decretando a independência brasileira.

Não existe um historiador(a) sério(a) que tenha se debruçado para estudar firmemente a vida de D. Leopoldina que não tenha procurado feito um louco esse documento. Também ecos de um passado longínquo que provassem que ele tivesse existido seriam bem-vindos. Mas eles são inexistentes. Tanto o Decreto em que formaliza o que ela podia ou não fazer, quanto as cartas de D. Leopoldina e José Bonifácio enviadas do Rio para São Paulo e, principalmente, a ata do Conselho reunido em 2 de setembro, mostram que esse documento não existiu. E, creiam-me, é com muito pesar que eu afirmo isso. Pois adoraria que algo do gênero tivesse existido.

Viva a História alternativa – Crítica a novela Novo Mundo – Revista Veja 26/04/2017

Fui um dos consultores da Revista Veja para ajudar na matéria “Viva a história alternativa”, onde o reporter Marcelo Marthe tentou definir até onde vai a ficção na novela Novo Mundo.

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