Arquivos de Categoria: crônicas

O documento que a Imperatriz Leopoldina nunca assinou

Recentemente tem havido no Brasil um movimento de empoderamento de vários grupos que constituem a nossa sociedade. O problema de vários deles é que, na ânsia de provarem seus pontos de vista e tirarem a poeira de diversos personagens da nossa história, acabam falando coisas que não ocorreram. Recentemente vi com preocupação a criação de um mito, o do “documento da independência”, que nunca existiu, assinado por D. Leopoldina.

D. Leopoldina foi, sem sombra de dúvidas, como eu demonstro na minha biografia sobre ela “D. Leopoldina, a história não contada”, a primeira política brasileira e a primeira governante de nosso país. Tiremos de lado D. Maria I que governou, parcialmente enquanto foi sã, uma colônia chamada Brasil que depois foi transformada em Reino Unido por seu filho, D. João; que governou muito mais que a mãe no cargo de Príncipe Regente.

D. Leopoldina foi a primeira mulher a governar o Brasil, poder esse exercido, autorizado e amparado pelo Decreto de 13 de agosto de 1822 no qual D. Pedro, que partia para São Paulo, deixava a esposa como governante do Brasil em sua ausência. O decreto diz:

“Tendo de ausentar-me desta capital por mais de uma semana para ir visitar a província de São Paulo (…) hei por bem que os meus ministros e secretários de Estado continuem nos dias prescritos (…), debaixo da presidência da princesa real do Reino Unido, minha muito amada e prezada esposa, no despacho do expediente ordinário das diversas secretarias do Estado e repartições publicas que será expedido em meu nome, como se presente fora (…) a qual fica desde já autorizada para, com os referidos ministros e secretários do Estado, tomar todas as medidas necessárias e urgentes ao bem e salvação do Estado; e tudo me dará imediatamente parte para receber a minha aprovação e ratificação, pois espero que nada obrara que não seja conforme as leis existentes e aos sólidos interesses de Estado. (…) Palácio do Rio de Janeiro, 13 de agosto de 1822.”

Ou seja, apesar de presidir o Conselho de Estado, receber secretários e ministros, D. Leopoldina tinha que dar parte de tudo o que fizesse para receber aprovação final de D. Pedro.

O Conselho de Estado reunido e presidido por ela em 2 de setembro de 1822 aconselhou (afinal era esse o objetivo do Conselho) que D. Pedro permanecesse no Brasil indo contra, novamente, as ordens da Assembleia Constituinte Portuguesa. A própria princesa afirma isso na carta que D. Pedro recebe em 7 de setembro no Ipiranga antes de proclamar a Independência:

“O Conselho do Estado aconselhava-vos para ficar. Meu coração de mulher e de esposa prevê desgraças, se partirmos agora para Lisboa.”

É inegável que em todo o episódio do Fico, durante todo o processo da Independência. D. Leopoldina procurou fazer de tudo para assegurar o bem e a segurança dos brasileiros e da causa autonomista. Mas não houve nenhuma declaração formal assinada pela princesa decretando a independência brasileira.

Não existe um historiador(a) sério(a) que tenha se debruçado para estudar firmemente a vida de D. Leopoldina que não tenha procurado feito um louco esse documento. Também ecos de um passado longínquo que provassem que ele tivesse existido seriam bem-vindos. Mas eles são inexistentes. Tanto o Decreto em que formaliza o que ela podia ou não fazer, quanto as cartas de D. Leopoldina e José Bonifácio enviadas do Rio para São Paulo e, principalmente, a ata do Conselho reunido em 2 de setembro, mostram que esse documento não existiu. E, creiam-me, é com muito pesar que eu afirmo isso. Pois adoraria que algo do gênero tivesse existido.

Anúncios

Perfume de Marquesa

idosa_miniHoje, 3 de novembro de 2013, faz exatamente 146 anos do falecimento da Marquesa de Santos. Num domingo, assim como este, a favorita do Imperador D. Pedro I, exalou seu último suspiro às quatro horas da tarde em seu casarão na Rua do Carmo, no centro de São Paulo.

Ontem, 2 de novembro, dia dos mortos foi inaugurada a exposição “Perfume de Princesa“, que integra o Beco do Pinto e os prédios do entorno, incluindo o Solar onde Domitila faleceu. A exposição, uma intervenção artística de tubos de metal, perfumes e odores corporais, foi inspirada no imaginário em torno da figura da Marquesa de Santos e no suposto hábito dela demonstrar, por meio de fragrâncias, o seu estado de espírito. Como artista é artista e historiador é historiador, não me peçam mais referências de onde essa informação surgiu. O historiador aqui não tem pálida ideia da fonte de apoio a tal afirmação utilizada pelo artista Walter Malta Tavares, responsável pela obra.

Quem ainda não lidou com a Domitila pode achar que foi proposital a inauguração da exposição no dia dos mortos e na véspera dos 146 anos da morte dela. Mas, de acordo com informações obtidas, diversos entraves, até mesmo burocráticos, teriam colaborado para a escolha da data.

Coincidência? Quem ainda não tratou de perto com a Marquesa que caia nessa! Alguém que, como eu, já coletou diversos “fenômenos” ocorridos no Solar, tais como: poças de perfume que apareceram e desapareceram sem deixar vestígio, funcionários que afirmam ter conversado com Domitila, pessoas que acharam muito interessante o “ator” fantasiado de Rafael Tobias de Aguiar, sendo que nunca houve ninguém vestido como o brigadeiro na atual exposição, ou ainda, coupe de grâceter visto mais de uma foto com o suposto fantasma da Marquesa que ronda o andar superior do solar, não tem como acreditar em “coincidências”.

Domitila está mais viva do que nunca em seu solar na Rua Roberto Simonsen e deve estar se divertindo com tanto entra e sai e tanta novidade surgindo a cada ano em torno de si. Que venham mais 146, que venham 300, 500 anos e que lendas, mentiras cabeludas, histórias tristes e alegres sobre ela continuem. Dia 27 de dezembro, aniversário dela, já está logo aí. Qual a próxima “coincidência”?

 

Neuras de paulista

036

Tímpano da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro. Baixo-relevo executado pelo escultor italiano Luigi Giusti

Sexta-feira passada, 25 de outubro, fui ao Rio de Janeiro participar do programa Sem Censura, na TV Brasil, comandado pela competente e simpaticíssima jornalista Leda Nagle. Cheguei cedo ao Santos Dumont, e uma amiga que ficou de almoçar comigo furou. Saí do aeroporto, atravessei a Avenida General Justo em busca de um restaurante. Todos lotados…. comecei a perambular, estava sem fome mesmo. Logo caí na Marechal Câmara, que vistas! De um lado, o Pão de Açúcar emoldurado por árvores, do outro, a Santa Casa de Misericórdia. Um lindo prédio. Já fazia tempo que queria conhecer o famoso pórtico projetado por José Maria Jacinto Rebelo, discípulo de Grandjean de Montigny, arquiteto vindo com a Missão Francesa. Rebelo também foi um dos construtores do Palácio Imperial, em Petrópolis. Os baixos-relevos do frontão da Santa Casa, realizados em pedra de lioz, são obras do escultor italiano Luigi Giudice. O medalhão central, ou tímpano, representa a caridade e é lindo. Animado com uma portaria às minhas costas cheio de milicos, saquei a minha máquina e comecei a fotografar.

052

Cartela do portão do Passeio Público do Rio de Janeiro, com as imagens de D. Maria I e D. Pedro III

Continuando a andança, fui em direção à Cinelândia e de lá caí no passeio público onde existe um lindo pórtico encimado com uma cartela mostrando D. Maria I e seu marido, D. Pedro III, avós de Pedro I do Brasil e IV de Portugal. Lembrança viva de nosso tempo como colônia… São Paulo, infelizmente, não guarda essas memórias.

Sempre que achava que estava seguro, tirava a minha máquina  da pasta e batia fotos. E assim foi indo até chegar à Lapa, onde fiz uma pausa para um almoço rápido. No restaurante, descobri que estava a poucas quadras da TV Brasil e decidi continuar a caminhada, que naquela altura já havia virado jornada fotográfica.  E foi aí, que eu reparei numa coisa: carioca para para você bater foto! No início achei que era coisa da minha cabeça, mas, depois do terceiro que esperou calmamente eu acertar o foco, vi que era realidade. Se eles veem você focando com a máquina, param e, depois que você bate a foto, eles continuam, e às vezes você até ganha um sorriso simpático! Aqui em São Paulo você tem que dar graças a Deus se o paulista estressado não passar por cima de você, da máquina e do foco!!!

No antigo prédio da Polícia Central, um susto: dois rapazes, jovens, se aproximaram sorrindo. Nesse momento pensei: “Pronto, minha sorte foi para o brejo”. Já estava dando adeus à câmera e pensando nas demais sete parcelas que faltam pagar quando os moços dividem comigo a piada a respeito das obras de restauro dos prédios do Rio: eles só têm dia para começar, mas não tem ano para acabar…

Sim, paulista é neurótico…

%d blogueiros gostam disto: