Sobre uma infância entre degenerados

Na noite de 18 de outubro, pouco antes da autocensurada amostra sobre a História da Sexualidade que será aberta no MASP dia 20,  eu estava fazendo pesquisa para levantar a iconografia do meu próximo livro e estava folheando algumas revistas O Cruzeiro antigas. Quando, do nada, numa matéria sobre modelos nus, os meus olhos caíram sobre o rosto de um velhinho de boina, um antigo conhecido.

tiohenrique

Revista o Cruzeiro, 20 de julho de 1968. Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=003581&pagfis=170576

A matéria o tratava por professor Henrique Manzo, mas eu me lembro dele como o “Tio Henrique”, que sempre tinha caramelos nos bolsos para os sobrinhos bisnetos que o visitavam no Pico do Jaraguá. O assunto era sobre uma aula de modelo vivo na antiga Escola Paulista de Belas Artes em 1968. O drama da moça que acabou tendo que virar modelo vivo devido a situação econômica familiar.

Uma frase do tio Henrique na matéria me chamou a atenção “Tudo o que é belo, deve ser mostrado. No belo não cabe a vergonha”. Poderíamos divagar durante anos sobre o que era “o belo” para alguém que se formou no Liceu de Artes e Ofícios no início do século XX com o diploma assinado pelo Ramos de Azevedo. De lá pra cá muita coisa mudou, mas não mudou uma coisa, que tanto eu quanto outras crianças da minha família brincaram dentro do atelier e da galeria dele vendo os nus artísticos que ele pintou ao longo da vida.

Muitos de nós vimos lá pela primeira vez um corpo nu, e a sua beleza ou a sua decrepitude e lá aprendendo a vê-lo como natural. Será que nossas mães deveriam ser punidas por expor crianças a quadros como “O Beijo” em que o erotismo era explícito, assim como todo o corpo humano em sua plenitude física no apogeu da juventude? Talvez os moralistas de plantão prefiram que seus filhos tenham contato com o corpo humano por meio da pornografia, de maneira envergonhada, culpada e escondida, criando gente doente, hipócrita e mais moralista ainda.

Deu saudades do tio Henrique e da tia Estela, sua fiel companheira e eterna apaixonada que sempre foi mais conhecida pelo seu nome “artístico” do que pelo de batismo: Narcisa. Aos 90 anos, a tia Estela adorava ver mulher pelada em desfile de escola de samba porque, assim como o marido, ela achava o corpo humano belo e o belo é para ser visto. 

O que eu posso fazer? Cresci no meio desses “degenerados” e de sua arte “imunda”. Que sorte a minha!

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